Comitê da Câmara dos Lordes recomenda banimento total da publicidade de jogos de azar no Reino Unido
Relatório aponta medidas rigorosas para combater danos do jogo problemático, com foco em proteger crianças e grupos vulneráveis.

Um comitê multipartidário da Câmara dos Lordes do Reino Unido recomendou nesta segunda-feira (17) a implementação de uma proibição abrangente da publicidade de jogos de azar em todo o país. O relatório do Comitê de Ligação identifica a redução do alcance do marketing como a medida mais eficaz para combater os danos relacionados ao jogo na Grã-Bretanha, classificando o problema como uma questão crítica de saúde pública.
Contexto histórico e evolução regulatória
O documento atualiza as conclusões de uma investigação realizada em 2020 sobre os efeitos sociais e econômicos da indústria de apostas, com foco específico em publicidade, marketing e patrocínios. Os parlamentares destacam que, desde a liberação das regras de publicidade pelo Gambling Act 2005, o setor experimentou crescimento exponencial. Antes dessa legislação, anúncios na TV e rádio eram restritos a produtos como bingo, loterias esportivas e a Loteria Nacional. Atualmente, os gastos anuais com publicidade do setor variam entre £1 bilhão e £2 bilhões, mostrando o poderio econômico da indústria.
Impacto na saúde pública
O relatório destaca dados alarmantes da Pesquisa de Jogo da Comissão de Jogos (GSGB), que apontam entre 1 e 1,5 milhão de adultos na Grã-Bretanha com pontuação suficiente no Índice de Severidade do Jogo Problemático (PGSI) para serem classificados como jogadores problemáticos. Na escala PGSI, desenvolvida para mensurar riscos, pontuações entre 3-7 indicam risco moderado, enquanto 8 ou mais caracterizam jogo problemático. Esses números reforçam a tese de que o marketing agressivo do setor contribui para o aumento de comportamentos de risco.
Falhas no sistema atual
O comitê critica duramente o atual modelo de autorregulação, que inclui códigos da Advertising Standards Authority (ASA) e medidas voluntárias da indústria. Como exemplo recente, citam o caso da operadora Midnite, que recebeu sua terceira advertência da ASA por anúncio no TikTok com personagem de aparência jovem. O presidente do comitê, Lord Ponsonby de Shulbrede, enfatizou que
"o avanço das técnicas de marketing digital desde 2020 exigiu uma reavaliação urgente das políticas", já que as recomendações anteriores não foram adequadamente implementadas.
Recomendações específicas para restrições
Entre as medidas concretas propostas estão: banimento total de marketing direto (e-mails, SMS, notificações push), exceto para comunicações essenciais de conta; proibição de incentivos como apostas grátis e bônus de cadastro, considerados porta de entrada para novos jogadores; e tratamento rigoroso do marketing de conteúdo e promoções por influenciadores como publicidade formal. O relatório cita estudo australiano que comprovou redução de 50% nos gastos com apostas quando participantes deixaram de receber ofertas de marketing direto.
Patrocínios esportivos em debate
A relação entre apostas e esportes recebeu atenção especial. O comitê argumenta que medidas voluntárias, como a proibição de patrocínios na frente de camisas pelo Premier League, são insuficientes, já que logotipos permanecem em mangas, kits de treino e placas de estádio. Dr. Matt Gaskell MBE, consultor do relatório, observou que
"a exposição geral durante transmissões esportivas não demonstra redução significativa pela autorregulação". A exceção seria para propaganda em pistas de corrida de cavalos e cães, mantida na versão atual do relatório.
Mudanças na estrutura regulatória
O comitê propõe transferência da regulamentação publicitária para a esfera estatutária sob a Comissão de Jogos, conferindo poderes proativos de fiscalização. O modelo atual, que divide responsabilidades entre ASA, órgãos setoriais e iniciativas voluntárias, é considerado fragmentado e ineficaz. O relatório rejeita argumentos da indústria sobre migração para operadores ilegais, citando experiências europeias onde restrições publicitárias não aumentaram o mercado negro de apostas.
Contexto político atual
As recomendações chegam em meio às reformas propostas no Livro Branco do governo britânico sobre regulamentação de jogos em 2023, que inclui a criação de uma taxa estatutária para financiar pesquisa e tratamento. O Departamento de Digital, Cultura, Mídia e Esporte recentemente nomeou um pesquisador para estudar inovações em publicidade online de jogos, incluindo influenciadores digitais. Porém, os Lordes alertam que novas pesquisas não devem postergar ações imediatas, dada a urgência do problema de saúde pública identificado.
O debate ganhou força após publicação de relatório do Grupo Parlamentar Multipartidário em maio, que classificou a publicidade de apostas como "questão de saúde pública". Enquanto isso, a indústria mantém resistência, contestando metodologias de pesquisa e defendendo que restrições prejudicariam o financiamento de eventos esportivos. O impasse político sobre o tema deve se intensificar nos próximos meses, com forte pressão de grupos de saúde pública por medidas mais duras.


